quinta-feira, 13 de abril de 2017

Preta

 ( Para Doris Faustino)

um dia eu vou sentir saudade de você
e você de mim
eu sinto tanto
que neste momento
nossa comunicação seja truncada
eu e minhas selvagerias...
você não pode entender

mas existe algo nos nossos olhos
entrecruzados
uma alegria reprimida
uma alegria que mora
dentro de uma despedida
eu sinto tanto

estou requisitando uma identidade
que é minha
 num juri tentando provar
algo que sou
estou gaguejando
não sei me impor
ainda não aprendi a falar
é, eu andei sofrendo
eu também comi o pão
que o diabo amassou
eu andei tremendo
de medo, frio, dor

eu preciso trabalhar para ter dinheiro
pra comprar comida
estou sem condições de ser UBUNTU
não agora. não nessa vida
eu me tornei pedregulho
e meu corpo e minha linguagem
são o corpo de pedra
eu sou a sertaneja de rocha
de um afro-ser-tão
imerso na própria desilusão
que ri enquanto lágrimas entornam
doidas de tímidas
doidas de medo
de escorrerem
e isso me tornar
alguém menor ainda
eu sinto tanto...

Mas além do mais:
a gente é leve
a gente brinca
a gente é rei
Do Congo
Madagascar
De Ilhas esquecidas
De Xica da Silva
Ou de Nzinga
A gente não finge
A gente não diz que é rainha
A gente sabe que é....
embora ninguém diga
A gente tem lágrimas alvas
e altivas
a gente tem o rio que lava
as alvas amarguras
e a gente se arma contra as duras
agruras da vida
alvejando nossas saias
e nossos sonhos
que tornam-se mais límpidos
quanto menos brancos



Está tarde! ouve o canto
do rio
que nos deságua
feito roupa retorcida
n'alguma pedra
n'alguma trouxa da gente carregar
levanta a cabeça
já é à noitinha
esse mundo gira
 tão devagar
é tanta lágrima que a gente
'inda vai chorar
Eu sinto tanto...
E rio, a pesar
de não poder ser rio assim
Tão lânguido