quinta-feira, 13 de abril de 2017

Preta

 ( Para Doris Faustino)

Nossa solidão é cacimba
escura feito o luar
nosso pranto duro
ninguém vê partir
e nem vê chegar

Nossa solidão é água
em zinco sacramentada
águas negras correntes
que nos quebram os grilhões
e nos atravessam no além mar

A solidão de uma mulher negra
que migra de onde nascera
é profunda como marca de nascença
busca solitária e incessante
de um lar que floresça

E apesar disto: a gente é leve
a gente brinca
Como rainhas do Congo
ou de Madagascar
de Ilhas esquecidas

De Xica da Silva
Ou de Nzinga
A gente não finge
A gente não diz que é rainha
A gente sabe que é....
embora ninguém diga

A gente tem lágrimas alvas
e altivas
a gente tem o rio que lava
as alvas amarguras
e a gente se arma contra as duras
agruras da vida

a gente se cura
alvejando nossas saias
e anoitecendo nossos sonhos
que cintilam negros
e se tornam mais límpidos
quanto menos brancos


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