quinta-feira, 18 de maio de 2017

Viajando pelas estradas do norte de minas e conversando com amigos, ouvindo suas histórias de família percebo que "Vidas Secas", romance de Rachel de Queiroz ainda reverbera no sertão. Vidas Secas resistem sem poesia, caminhando em bandos pelas estradas. São famílias, são crianças e também animais. Ah, se Rachel de Queiroz soubesse que ainda há vidas secas em pleno 2017!

Não é quadro, exposição ou romance . é a vida real: crianças desnutridas caminhando pelas rodovias em busca de sabe lá o quê. Eu vi os vultos rasgando o asfalto no entardecer cor de barro. Eu vi a água faltando e faltando tudo, como se fosse um pedaço do século passado. O sertão não traz o aglomerado humano de uma periferia, também remanescente da escravidão mas é demarcado pelo  isolamento. Vidas que, exiladas da participação do frenesi das cidades,  ressecam sozinhas, no miolo,  sem expectadores.

O sertão, como periferia geográfica do que fica distante da modernização sofre também um afastamento temporal da pós modernidade. É possível se notar ao primeiro olhar pelas vestes, e a uma conversa descomprometida, a dificuldade de acesso às tecnologias.

O sertão é um outro tipo de "quarto de despejo" a qual se referiu Carolina Maria de Jesus, só que estes seres humanos "restos" ficam espalhados, com a fragilidade do vínculo comunitário contrastada com a solidariedade que possuem: solitários, feito fantasmas, caminhando à noite, sem medo dos carros que passam em alta velocidade, ou como reflete Conceição Evaristo num conto de "Olhos dágua" : provavelmente a vida os assusta mais do que a morte.. O sertanejo, na figura do cangaço, não possui medo da morte. Aquele que serve ao bando, de arma em punho e corpo fechado. No sertão a estatística, a lógica e a aritimética dão lugar à mais simples e natural crença. E crença também é uma forma de poesia, um jeito de procurar sentido pro mundo e de trazer o ser para dentro de si mesmo.

Mas a poesia, que não se assustem os desavisados, é uma poesia cangaceira e de protesto. Como dizia minha professora poetisa Marli Froes, aquela poesia que te mata com dois tiros "tou com fome!" " tou com fome!". Esta é a a rima do sertão, a rima incompleta, aberta, que se faz na travessia mas que não é de uma paleta invisível que se fecha em si mesmo. O sertão é dor, mistério. resistência da boiada que anda no passo contrário. O sertão é o mundo, mas não de todo mundo.

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